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África

  • De Marraquexe a Ouarzazate pela cordilheira do Atlas. O que podia correr mal?

    Curva e contracurva, penhasco atrás de penhasco. Sempre que olhava pela janela arrependia-me.

    Tive dois medos: 1º obviamente que a carrinha onde estava caísse por um daqueles penhascos infinitos e 2º que tivesse um ataque cardíaco.  Podem achar que estou a exagerar, mas acreditem que não estou, este percurso da montanha é um verdadeiro labirinto e para “ajudar à festa” o nosso motorista estava numa correria louca.

    Para além dos meus medos o que mais poderia correr mal? Por exemplo a carrinha avariar no meio da montanha, e não é que……. esperem para ver!

    Estava eu ainda em Lisboa quando decidi que queria fazer uma excursão a Ouarzazate, apressei-me a enviar email ao Riad onde ia ficar instalada para saber se faziam essa viagem. A resposta foi positiva e por 30€ era possível matar a minha curiosidade quanto a este cantinho bérber.

    Já com os pés em solo marroquino chegou o dia marcado para a excursão.

    Ás 6 horas da manhã tocou o despertador. Tenho meia hora para me despachar e descer para tomar o pequeno almoço, combinei com o Youssef sair do Riad às 6.45 horas. E assim foi, às 7 horas já estava perto da praça Jemaa El Fna a sair de uma carrinha para entrar numa outra.

    Já vos dei um cheirinho de como estava a correr a viagem, no mínimo atribulada, eu só pensava: mas quando é que chegamos? será que falta muito?

    Neste entretanto ia-me distraindo com duas senhoras portuguesas que também estavam na carrinha.

    Ao fazermos a “milésima” curva o motorista encostou a carrinha numa berma e lá saímos todos sem perceber muito bem o que se passava.

    Abriu o capô e andou a inspeccionar. Com ele estava outro homem, que dizia ser um guia turístico e juntos acabaram por trocar uma peça do motor (não me perguntem que peça que eu não faço ideia).

    Esta “pausa forçada” deu para conhecer os restantes passageiros, um chinês, dois australianos e uma inglesa.

    Seguimos viagem mas não por muito tempo, após umas 4 ou 5 curvas a carrinha parou e desta vez não tínhamos nenhuma berma, estávamos literalmente a seguir a uma curva, no meio da montanha do atlas.

    Como havia o perigo de um carro não ver a carrinha logo após a curva decidimos ir para a outra margem da estrada.
    O nosso motorista ia tentando pôr a carrinha a funcionar, sempre aos solavancos até que fez uma contracurva e desapareceu.

    A situação, no meio de tudo até era cómica, um grupo de turistas no meio da montanha, sozinhos, o motorista e o guia tinham desaparecido.

    Após alguns minutos lá regressaram, e o dito guia informou-nos que iam chamar outra carrinha de Marraquexe e que ele afinal não era guia e assim que conseguiu escapou-se numa boleia de uma qualquer carrinha que passava na estrada.

    Ficámos nós e o motorista durante umas 2.30h / 3h com um calor que não se aguentava, devia ser meio dia ou uma da tarde. O motorista foi-nos entretendo com histórias, falou-nos da cultura marroquina, falou-nos do Ramadão e por fim falou-nos de como abominava todos os que usavam o nome de Alá para cometer actos terroristas.

    Entretanto a senhora inglesa, já velhota, estava desejosa de ir embora e apanhou uma boleia de uma outra carrinha turística (que só tinha 1 vaga).

    Finalmente chegou a carrinha de substituição, já passava da hora do almoço e o suposto era almoçarmos em Ouarzazate. Seguimos viagem com um motorista carrancudo e com ainda mais pressa que o primeiro, isto promete!

    Chegámos! Finalmente! Mal sai da carrinha e vi a paisagem fiquei: woww, isto compensa qualquer “quase” ataque cardíaco.

     

    Acabámos de almoçar, vamos atravessar a estrada e conhecer o verdadeiro homem bérber que nos espera para nos guiar na também verdadeira cidade bérber, a Kasbah de Taourirt.

    Antes de mais, sabes o que são Kasbahs?

    Kasbahs ou Casbás são casas fortificadas feitas de argila, estrume e palha. Este Kasbah em especial é várias vezes utilizado para cenário de filmes, sabias que foram aqui gravas algumas cenas da Guerra das Estrelas?

    O par de horas seguinte foi indescritível, percorremos labirintos com cor de tijolo, ouvimos histórias da cidade, conhecemos as poucas pessoas que ainda lá vivem, bebemos o melhor chá de menta de toda a minha vida e vimos centenas de tapetes, os verdadeiros tapetes marroquinos.

    No fim e prestes a seguir viagem, o guia pediu uma pequena “contribuição”, o que não me espantou, mesmo já tendo pago a excursão todos têm por hábito pedir “contribuições” pelas explicações dadas.

    Antes de me despedir desta cidade ainda soube pelo homem bérber quantos camelos valia – 400, mais coisa menos coisa!

    Seguimos até ao próximo destino, o Atlas Studios, que já estava fechado por conta do atraso causado pelo episódio da avaria da carrinha. Aqui seria possível ver diversas réplicas desde Jerusalém, entradas para pirâmides do Egipto a templos Budistas.

    Nestes estúdios de cinema foram gravados vários filmes e séries como o Gladiador, o Príncipe da Pérsia, Obélix e Asterix, a Paixão de Cristo e a tão famosa série Guerra dos Tronos.
    O tempo não estava a nosso favor, o céu começou a ficar coberto de nuvens escuras e os primeiros pingos de chuva caíram.
    Corremos para a carrinha e seguimos viagem até ao tão aclamado Ksar Aït-Ben-Haddou.

    O que é um Ksar? perguntas tu. Ora Ksar ou Ksour são vilas fortificadas que contêm um ou mais Kasbahs/Casbás.

    O Ksar Aït-Ben-Haddou deixa qualquer um sem palavras, para mim é das paisagens mais marcantes do Sul de Marrocos.

    Localizado na antiga rota de caravanas do Deserto Saara até Marraquexe este Ksar é considerado património mundial da UNESCO sendo ainda habitado por 4 famílias.

    Consegues imaginar uma colina, um rio e todo aquele cenário que parece tirado de um filme? Na realidade muitos filmes é que “roubaram” este cenário – Gladiador, a Múmia, Game of Thrones, entre muitos outros.

     

    Já deviam ser umas cinco ou seis horas da tarde e estava na hora de fazer todo o percurso inverso para voltar a casa.

    A viagem de regresso conseguiu superar a loucura da primeira viagem, isto porque o motorista estava cheio de pressa para chegar a Marraquexe – para acabar o jejum do dia e poder finalmente comer.
    A toda esta pressa juntou-se a chuva que transformou a viagem numa alucinante montanha russa.
    A senhora australiana vomitava vezes sem conta e o que é que me restava fazer? Dormir, era sem dúvida a melhor opção.

    Chegámos a Marraquexe e quase que me benzi! Não posso negar, foi um dia em grande e sem dúvida que vai ficar para a história.

    Boas viagens!

  • Lado a lado com o Ramadão

    “Allahu Akbar” Estas palavras ecoam por toda a cidade. São 20 horas e estou a caminho da praça Jemaa el-Fnaa, vou conhecê-la pela primeira vez e já…

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